A Televisão em Raymond Williams: debates e perspectivas

Por Roberto Barcelos. O Centro de Crítica da Mídia, em parceria com os colegiados dos cursos de Cinema e Audiovisual e Publicidade e Propaganda da PUC Minas, Coração Eucarístico, realizou na quarta-feira, dia 8 de março, a palestra Televisão e Estudos Culturais: leituras de Raymond Williams. O debate teve como tema central a análise do livro Televisão: Tecnologia e Forma Cultural, traduzido pelos professores Márcio Serelle e Mário Viggiano, ambos da PUC Minas. O evento contou, ainda, com a presença da professora Vera França, da UFMG. O livro foi originalmente publicado na Inglaterra em 1974, ganhando tradução em 2016 pelas editoras Boitempo e PUC Minas.

A introdução da aula foi conduzida pelo professor Mário Viggiano, que discorreu sobre o processo de tradução do livro e a contribuição de Williams para os estudos de comunicação. Além disso, falou sobre pontos importantes da biografia do autor. Williams nasceu no País de Gales em 1921, filho de um ferroviário que possuía uma relação muito importante com o Partido Trabalhista Britânico. Suas pesquisas sobre o consumo de mídia contribuíram para a fundação dos estudos culturais. A importância do seu nome o tornou uma figura influente da Nova Esquerda. Entre os desafios impostos durante o processo de tradução, Viggiano destacou a importância de se manter estilo e identidade narrativa de Williams. “Criterioso”, de acordo com o professor, é o adjetivo que marca o processo de trazer para o português pensamentos do autor britânico.

O professor Márcio Serelle analisou o livro a partir das duas palavras-chave que Williams destaca logo no título de sua obra seminal: tecnologia e forma cultural. Tecnologia, de acordo com Serelle, diz respeito à uma aplicação de conhecimento dentro de um campo selecionado, criando sistemas de meios e métodos. “Ela (televisão) é uma combinação e uma remodelação de mídias diversas”, pontua o professor. A televisão foi encarada por Williams como objeto híbrido, que une tecnologias desenvolvidas pela eletricidade, fotografia, cinema e rádio. Ela opera como uma síntese tecnológica a um conjunto de necessidades.

O pensamento sobre a tecnologia é, ainda, alinhado às formas culturais, como as notícias, debates políticos, filmes, esportes e a publicidade. Elas são difundidas pela programação televisiva, anteriores ao surgimento da televisão, mas que passaram a ser incorporados a ela. Além dessas formas que são incorporadas, surgem, também, novas formas culturais, específicas ao meio televisivo. Williams cita em seu livro o exemplo do drama documentário, obra audiovisual que mistura em si elementos do gênero documentário e a ficção, o que quebra a distinção criada entre o real e o imaginário.

Serelle trouxe as reflexões feitas por Williams para o nosso consumo de televisão na contemporaneidade, principalmente agora com o surgimento do streaming como método e plataforma de acesso e transmissão do audiovisual via internet. O conteúdo que antes era vinculado apenas a um meio tecnológico tornou-se presente no computador, smartphones e Smart TVs. Dessa maneira, é criada uma nova possibilidade de interação com a web. O Netflix, por exemplo, é uma plataforma de streaming que permite avaliar seus programas. Essa avaliação é facultativa e pode acontecer ao enumerar o que foi assistido por meio de estrelas. A plataforma também permite que o espectador opine sobre a sua programação com um comentário de, no mínimo, 50 palavras. “O streaming também tem uma lógica que está na sua tecnologia e na forma cultural que começa a desenvolver nas séries que ali estão veiculadas”, completa o professor.

A professora Vera França, em consonância com Serelle, ressaltou a importância do estudo da obra para os estudos de televisão no século XXI. França reforça a ideia de que tecnologia é sempre cultural. A televisão, como produto cultural, se instala em ambientes específicos, ao lado de outras formas culturais das quais se apropria para o seu desenvolvimento como forma própria. O conteúdo exibido dentro da programação, criada, agora, exclusivamente para a televisão, começa a seguir um fluxo evidenciado por Williams durante a sua análise. O que o telespectador assiste segue uma lógica que acompanha desde os telejornais até os programas de entretenimento e própria publicidade. O método utilizado por Raymond Williams, de acordo com França, é uma aula sobre como analisar a televisão. O autor aponta para a influência das técnicas e das formas culturais, dois elementos que fugiram das tendências de investigação midiática, inaugurando a noção de fluxo televisivo com uma nova perspectiva metodológica. Seus estudos marcam a emergência de um novo olhar para a televisão e suas novas formas.

Para saber mais, leia o artigo publicado no blog da Boitempo.

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Foto: Artur Lahoz

Roberto Barcelos é graduando do curso de jornalismo da PUC Minas e monitor do Centro de Crítica da Mídia.

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