Diante da dor dos outros: a cobertura do sofrimento humano em ocorrências de terremotos no mundo

Por Eliziane Silva Oliveira. Na madrugada do dia 24 de agosto de 2016 – ainda noite do dia 23 no Brasil – um terremoto de 6.2 graus na Escala Richter atingiu a região central da Itália, deixando cerca de 300 mortos, dezenas de feridos e centenas de pessoas desabrigadas. Abalos sísmicos na Itália são relativamente frequentes. Entre as explicações apresentadas por cientistas para a intensa atividade sísmica na região estão o grande atrito entre as placas tectônicas da Eurásia e da África e também a existência de um sistema de falhas ao longo de toda a extensão da Cordilheira dos Apeninos.

Para além das respostas que justificam a ocorrência de terremotos em diversas regiões do mundo, o que nos interessa neste momento é avaliar como a cobertura jornalística contribui, em diversos aspectos, para a criação e/ou consolidação de imaginários sobre nações, independentemente de sua localização geográfica. Considerando o desenvolvimento das tecnologias de comunicação, facilidades e a velocidade que a circulação de informações ganhou nos últimos anos e também o desenvolvimento da fotografia digital, temos acesso a um número cada vez maior de imagens fotográficas em intervalos de tempo cada vez menores. E esse grande número de imagens, somado às linhas editoriais, processos de edição e até mesmo a questões ideológicas contribui, de certa maneira, para difundir ideias e informações positivas ou negativas sobre esses países.

Muito embora terremotos e outros acidentes naturais preencham os requisitos e atendam aos critérios de noticiabilidade estabelecidos por Mauro Wolf (2005) ou ainda se enquadrem no conceito de acontecimento definido por Adriano Duarte Rodrigues (1999), as primeiras notícias sobre o terremoto na região central da Itália foram publicadas pelos jornais brasileiros somente no dia 25 de agosto. Para uma breve análise da cobertura fotográfica do terremoto na Itália em capas de jornais brasileiros, foram selecionadas as edições do dia 25 de agosto de 2016 da Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Estado de Minas, tomando como ponto de partida o conceito de objeto noticioso, delimitado por Isaac Antônio Camargo, que considera a importância de todos os elementos gráficos, visuais e textuais que compõem, nesse caso específico, as manchetes publicadas por cada um dos jornais em suas primeiras páginas.

As três publicações trouxeram manchetes sobre o terremoto em suas capas, com algumas semelhanças nas abordagens editoriais. Os três jornais utilizaram grandes fotos coloridas, que mostram, prioritariamente, a destruição de edificações – históricas ou não, sem ênfase nas pessoas. Na primeira página do Estado de Minas, a manchete sobre o terremoto na Itália foi publicada na parte inferior da página, com uma grande foto colorida mostrando a destruição dos prédios. É a única foto que mostra uma pessoa, com as mãos na cabeça – gesto característico de desespero – entre os escombros. Logo abaixo da imagem, o título “Desespero na Itália” em maiúsculas pretas. Na capa da Folha de S. Paulo, a manchete também foi publicada na metade inferior da página. Uma grande foto colorida, mostrando os escombros dos prédios e algumas pessoas caminhando sobre as edificações destruídas. O título – “Terremoto no centro da Itália mata dezenas e isola cidades” -, bem como o texto da chamada foram publicados à esquerda da foto, sem destaque. Já n’O Estado de S. Paulo, o título “Terremoto mata 159 na Itália”, bem como a grande foto aérea colorida e o texto da chamada foram publicados à direita da página, local de maior destaque e visibilidade para a notícia. Foi a fotografia que ocupou maior área na página, ressaltando, assim como as outras duas publicações, a destruição estrutural das cidades, sem apresentar destaque para o sofrimento humano, que poderia ser ou estar estampado nos rostos de pessoas.

Outra semelhança no comportamento editorial dos jornais ao publicar as primeiras notícias sobre o terremoto na Itália foi não utilizar elementos gráficos como tarjas pretas ou vermelhas, vinhetas ou outros que, em conjunto, poderiam contribuir para a construção, pelos leitores, de uma imagem de maior gravidade daquele acidente natural. Essa pode parecer apenas uma análise formal das manchetes publicadas em cada um dos jornais, mas a estrutura das manchetes e as escolhas de elementos gráficos e das fotografias nos apontam pistas de que a estrutura das notícias trazem, em si, conteúdos ideológicos percebidos no conteúdo de textos e imagens escolhidos no processo de edição e que resultam na materialização do que é publicado.

Essa breve análise nos leva de volta às coberturas dos terremotos ocorridos no Haiti, em 2010, e no Japão, em 2011,  que apontaram diferenças significativas na abordagem e, consequentemente, na construção de discursos visuais distintos sobre os dois episódios pelos jornais Estado de Minas, Folha de S. Paulo, Hoje em Dia, O Estado de S. Paulo, O Globo e O Tempo nos dias que se seguiram aos terremotos que atingiram os dois países. A principal semelhança encontrada está nas coberturas dos terremotos na Itália e no Japão. Ambos são países que estão no grupo mais hegemônico na geopolítica mundial, com histórias que reverberam, ao longo dos anos, nos demais países do mundo: o Japão com sua cultura milenar, considerado um povo de paz e com grande capacidade de reconstrução, e a Itália, berço da cultura renascentista, cujos modelos artísticos influenciaram, com o pensamento humanista, todo o mundo ocidental. Além dos aspectos históricos, os dois países, por exemplo, estão no topo das listas da Organização das Nações Unidas (ONU), com altos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), que considera em sua elaboração, dados como expectativa de vida, tempo de escolaridade e renda. Na listagem divulgada no final de 2015, composta por 188 países, o Japão ocupou a 20ª posição, com IDH 0,891 e a Itália esteve no 27º posto, com índice 0,873. Já o Haiti, nessa mesma lista, ocupou a 163ª posição, com IDH 0,493. Essas posições diametralmente opostas no que diz respeito a condições econômicas e sociais das nações talvez apontem motivos ou justificativas para o comportamento editorial de jornais de diversos países, incluindo o Brasil, na cobertura diferenciada de tragédias naturais semelhantes em nações com características tão diversas.

Foram analisadas as manchetes sobre cada um dos episódios, bem como seus elementos, principalmente as fotografias utilizadas, para se verificar as diferenças existentes entre os discursos fotográficos elaborados a partir da publicação de imagens com forte apelo emocional pelos jornais em cada um dos episódios. Na comparação realizada, trataram-se da cobertura e construção das notícias sobre episódios similares – terremotos de grande magnitude – em dois países com histórias e situações econômicas distintas e distantes: o Haiti é um dos países mais pobres do mundo e o Japão está entre as maiores economias mundiais. Na área social, muito embora esteja intimamente ligada aos aspectos econômicos, as diferenças também são grandes: de acordo com dados da ONU, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Haiti, em 2010, era 0,45 (161ª posição) e o do Japão, no mesmo ano, era 0,90 (10ª posição).  Em ambos os casos, as primeiras páginas abriram espaço para o sofrimento humano e, consequentemente permitiram a construção de discursos embasados no elemento visual fotografia que privilegiou a exposição da dor e dos sentimentos.

As primeiras páginas dos jornais foram analisadas em seus contextos e foram avaliados os aspectos como a composição das páginas, bem como o uso de fotografia e outros indicativos gráficos para verificar as formas de construção do discurso visual nas primeiras páginas em cada um dos jornais estudados. Foram avaliados ainda os diálogos estabelecidos entre as primeiras páginas, já que houve, em alguns casos, utilização de uma mesma fotografia em mais de um jornal, mas para construir discursos distintos, levando-se em consideração a linha editorial de cada um dos veículos.

A partir das análises, os resultados puderam ser elencados em duas categorias: quantitativa e qualitativa. Dito isso, percebeu-se que, numericamente, as manchetes e as fotografias foram utilizadas em grande volume por todos os jornais que compõem o corpus desta pesquisa nos dois momentos. Entretanto, como em todo acontecimento jornalístico que tem longo período de cobertura, os assuntos perderam importância com o passar dos dias e, consequentemente, ocuparam espaços menores, bem como o uso de imagens fotográficas foi diminuído ao longo do período.

Mas as semelhanças na cobertura fotográfica dos dois episódios se esgotaram nos grandes espaços destinados às manchetes e no uso intenso de fotografias também de grandes dimensões, em sua maioria, já que as diferenças entre os tipos de fotografias publicadas foram perceptíveis nos dois momentos, ou seja, houve semelhanças no aspecto quantitativo, mas diferenças no que diz respeito ao conteúdo das imagens publicadas e na construção das manchetes com utilização de recursos gráficos visuais que podem ter contribuído para que a percepção do sofrimento fosse ampliada na cobertura do terremoto no Haiti e minimizada na cobertura do terremoto no Japão. Muito embora os dois episódios sejam semelhantes sob o ponto de vista técnico – sismos de grande magnitude –; as diferenças sociais e econômicas existentes entre os dois países também podem ter contribuído para que os discursos visuais construídos pelos jornais nos dois momentos fossem de natureza diversa. E a consequência é que tais discursos podem colaborar para a construção de um imaginário acerca de cada um dos países.

Durante a cobertura do terremoto no Haiti, foi registrado o uso de fotografias que podem ter contribuído para aumentar a percepção do sofrimento provocado pela ocorrência de um acidente natural em um país que já sofria com outros tipos de problemas como a pobreza extrema e os desmandos políticos. Grande parte das fotografias publicadas pelos jornais ressaltou o sofrimento individual, já que foram utilizadas, especialmente nos primeiros dias, imagens fechadas em close no rosto das pessoas, o que ressalta a percepção do sofrimento. Além de situações dessa natureza, as imagens fotográficas apresentaram também o sofrimento provocado pela carência de alimentos, que resultou em disputas violentas nas ruas e ressaltadas pelos jornais como luta agressiva pela sobrevivência; e ainda o sofrimento coletivo proporcionado pela ausência de infraestrutura do país, agravada pela ocorrência do terremoto, como a escassez de água potável para consumo humano e água contaminada por esgoto, por exemplo.

Já durante a cobertura do terremoto no Japão, o sofrimento foi apresentado aos leitores de uma forma menos ostensiva, já que, especialmente nos primeiros dias, as fotografias presentes nas manchetes raramente mostraram rostos e expressões de desespero como no caso haitiano. A grande maioria das imagens apresentou a destruição da infraestrutura urbana, como o sistema viário, aeroportos, edificações ou meios de transporte. Na mesma linha da destruição estrutural, foi apresentado o sofrimento provocado pelo desabastecimento, mas não porque não havia dinheiro para comprar alimentos, e sim porque os produtos não chegavam aos supermercados. O último tipo de sofrimento apresentado pelos jornais também é decorrente da destruição estrutural, já que uma usina atômica foi destruída pela força do tsunami, o que representou o sofrimento pelo medo da contaminação radioativa, uma vez que há, na história japonesa, outros episódios relacionados à radiação e que provocaram danos a um grande número de pessoas.

Nos dois momentos, foram construídas narrativas cujos temas principais, de uma forma unânime, mas resguardadas as características de cada uma das publicações, foram os sofrimentos humanos. O que se pode afirmar a partir daí é que nos casos dos terremotos no Haiti e no Japão, que são países que têm uma relação institucional estreita com o Brasil, qualquer brasileiro poderia ser parente ou amigo de alguma das vítimas ou de familiares de vítimas. Sendo assim, os jornais, ao publicar manchetes com muitas fotos e elementos gráficos que podem ampliar a sensação da gravidade dos episódios, produziram um discurso que poderia ser capaz de atingir emocionalmente um grande número de pessoas.

Apesar das diferenças, pode se pensar que houve, de forma intencional ou não, na construção das manchetes, uma padronização dos discursos criados sobre cada um dos terremotos, o que contribuiria para que circulassem, durante aqueles dias, ideias comuns sobre cada um dos países, seus habitantes, suas histórias e suas culturas. Esse comportamento, percebido nos seis jornais que são objetos de estudo deste trabalho, pode ter contribuído para a construção ou reforço de um imaginário talvez já existente na memória coletiva dos brasileiros sobre o Haiti e o Japão.

O resultado, se considerarmos as imagens fotográficas publicadas e a construção das manchetes e o uso de elementos gráficos, foi a percepção de maior gravidade e sofrimento do terremoto no Haiti e menor intensidade no terremoto no Japão, ainda que, tecnicamente, o sismo no país oriental tenha sido mais forte.

Até aqui, há nada de novo no que se sabe sobre cada um dos países e não é intenção desta análise pretender escamotear características ou situações presentes em cada um dos países. Se nos ativermos somente aos dados do IDH, é possível, mesmo sem conhecer cada uma das nações, compreender que há diferenças gritantes em seus aspectos sociais e econômicos. O questionamento a ser feito é acerca de uma diferença ética nas coberturas feitas pelos jornais nos terremotos em países ricos ou pobres.

Ao analisar separadamente as manchetes sobre cada um dos terremotos, apontamos, para além das diferenças plásticas e ideológicas existentes entre os dois períodos, distinções na abordagem ética de cada um dos episódios, ressaltando que, em cada um dos momentos, poderia haver, entre os leitores, o despertar de sentimentos distintos e até mesmo contraditórios.

Retomamos aqui, brevemente, os conceitos de Spinoza (2013), para quem afetos são “as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções”. De acordo com o filósofo, tanto a coisa em si – neste caso os terremotos que atingiram o Haiti e o Japão –, quanto a lembrança prévia e as ideias sobre a coisa podem suscitar afetos semelhantes nas pessoas. Sendo assim, consideramos que as ideias divulgadas nos discursos elaborados pelas publicações contribuíram para que, ao final, fosse percebida uma diferença ética nas abordagens que poderia apontar para a observação de afetos contrários – tristeza e alegria – que seriam condizentes com os discursos construídos pelas publicações acerca de cada um dos terremotos.

O Haiti é uma nação pobre, com passado de escravidão e um presente de corrupção e diferenças sociais. Tal procedimento adotado pelos jornais reforça o que, para Susan Sontag (2003), reside no exotismo do povo haitiano, de pele negra e costumes sociais e religiosos diferentes daqueles percebidos em outros países da América Latina, inclusive no Brasil. Sontag (2003) afirma que há, desde o início do século XVI, a praxe de exibir seres humanos exóticos – colonizados – e que esse costume é notado ainda na contemporaneidade. O Japão é um país rico, uma das potências econômicas contemporâneas, cujo povo é considerado civilizado e organizado e que já passou por outros momentos históricos que provocaram danos e dificuldades para os japoneses, como as explosões das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, na década de 1940. Ainda que haja o exotismo e as particularidades culturais do povo oriental, o tratamento não foi pejorativo como foi no caso haitiano, em que houve um realce do racismo, já que, muitas vezes, pessoas negras são associadas à pobreza, violência e marginalidade.

Nos casos dos terremotos no Haiti e no Japão, o que se percebe é que houve uma exposição do mal, do sofrimento e até mesmo das superstições que envolvem o povo haitiano. Essa seria, de acordo com os filósofos, uma prática que não levaria à liberdade ou não seria uma prática ética, por não considerar particularidades e especificidades do povo haitiano e, sobretudo, por expor, de forma tão ostensiva, características consideradas como negativas. Esse comportamento editorial, que ressalta apenas o que é considerado ruim em uma nação e seu povo, contribuem apenas para que esse continue a ser visto, pelo restante do mundo, como um lugar que merece, na melhor das hipóteses, apenas a compaixão, já que estando distante de cada leitor, nada mais pode ser feito para que aquela situação seja alterada.

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Eliziane Silva Oliveira é doutoranda e mestre em Estudos de Linguagens pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), com pesquisas na área de fotografia/fotojornalsimo  e membro do Grupo de Pesquisa Mídia e Narrativa.

Referências

RODRIGUES, Adriano Duarte. O acontecimento. IN: TRAQUINA, Nelson (org). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”.2 ed. Lisboa: Veja, 1999. 27-33 p.

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Tradução: Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SOUSA, Jorge Pedro. Fotojornalismo – introdução à história, às técnicas e à linguagem da fotografia na imprensa. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004.

SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. Chapecó: Grifos; Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2000.

SPINOZA, Benedictus. Ética/Spinoza. Tradução: Tomaz Tadeu. 2 ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013. 238 p.

WOLF, Mauro. Teorias das Comunicações de Massa. Tradução: Karina Jannini. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 295 p.

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