Black Mirror: Cinismo e Crítica da Mídia em “15 milhões de méritos”

Por Julia Lery. Seguindo a tradição das distopias, recentemente resgatadas pelas séries televisivas, episódio “15 Milhões de Méritos” (Euros Lyn, 2011), de Black Mirror, aborda um futuro opressor exagerado, mas incrivelmente próximo de realidades presentes e cotidianas. É exatamente por conta dessa identificação que sentimos ao ver a série que o jargão e a hashtag “isso é tão Black Mirror” tornam-se parte das conversas cotidianas e postagens nas redes sociais.

No futuro construído em “15 Milhões de Méritos” as pessoas vivem em celas dominadas por telas, e a única possibilidade de ascensão social e fuga de um trabalho braçal está na participação em um reality show ou show de calouros. O episódio mostra uma sociedade capitalista extremamente midiatizada, e que vive uma ilusão meritocrática. Como forma de justificação social das opressões, o discurso hegemônico nessa sociedade, assim como na nossa, é o de que há escolha e possibilidade de ascensão para quem tem talento e trabalha duro. Um discurso que sabemos muito bem não corresponder à realidade, já que sucesso ou insucesso no mundo capitalista neoliberal são, se não determinados, fortemente influenciados por condições de nascimento. A situação socioeconômica da família em que se nasce influencia o acesso à educação, a oportunidades e até mesmo a longevidade dos indivíduos. As brechas a essa mobilidade social reduzida são poucas, de difícil acesso e injustas, como o programa que seleciona, no episódio, os indivíduos talentosos que terão o privilégio da ascensão – mas, para participar dele e se submeter àquele processo abusivo, é necessário pagar uma quantia absurda.

Durante a narrativa do episódio, a falácia da meritocracia fica explícita quando a mocinha da trama, depois de uma bela apresentação de canto em um show de calouros, é informada de que sua única oportunidade de ascensão seria se tornar uma atriz pornô. O anúncio contraria todas as expectativas dela, mas não rompe com a lógica midiática do jogo e com a promessa de ascensão social daquele programa.

De acordo com Roger Silverstone, um dos grandes problemas da mediação midiática é que ela se coloca como um jogo. Isso significa que existem regras que devem ser seguidas pelos produtos midiáticos. Essas regras passam por parâmetros estéticos, capacidade de entreter e cumprimento das promessas internas – como a promessa de ascensão social para os vencedores, no caso do reality show mostrado em “15 milhões de méritos”.

O espectador, então, não sendo passivo, verifica atentamente o cumprimento dessas regras internas. Se a qualidade técnica do programa for ruim, ele será criticado. Se uma quebra de promessa for explícita, ele será criticado. Se um participante daquele reality recebesse uma proposta para ter seu espaço na TV e depois não obtivesse o espaço prometido, isso provavelmente causaria um colapso naquele sistema. O comprometimento dessas regras criadas pelo programa com uma realidade extra-midiática, porém, não é cobrado. Não importam as consequências daquele jogo para a vida da mocinha ou do protagonista. Não importa que ele sustente a ilusão de ascensão que permite que toda uma categoria, a das pessoas que pedalam, seja explorada continuamente sem se rebelar contra o sistema. Não se questiona o posicionamento político ou a própria existência do jogo – tudo o que se quer saber é se as regras estão sendo cumpridas.

O único personagem que parece perceber a crueldade daquelas regras é o protagonista. Ele, então, sai da situação de apatia em que vivia e tenta, de alguma forma, dar visibilidade a sua crítica e sua frustração. Ele trabalha exaustivamente até reunir novamente a quantia necessária para participar do programa e, ameaçando se matar ao vivo – o que quebraria as regras do jogo, trazendo uma dimensão de realidade violenta que romperia com seus pactos de entretenimento leve –, consegue espaço para levar ao ar um discurso crítico intenso. Com um caco de vidro no pescoço, o protagonista fala da falta de materialidade do mundo midiatizado e, especialmente, das injustiças cometidas por aquele jogo que determina os critérios de ascensão.

Quando os juízes falam, no momento que se segue ao clímax do episódio, percebemos que a crítica ao sistema veiculada no próprio sistema é assimilada e se esvazia. Eles tratam o discurso contrário como mais um espetáculo a ser veiculado pelas emissoras de TV, e o crítico como mais um concorrente naquele reality.

Para compreender esse processo de assimilação da crítica, precisamos retomar o conceito de ideologia marxista. Embora as releituras têm defendido a conceituação de ideologia simplesmente como um sistema de pensamentos e ideias em voga, Marx defendia a ideologia como reprodução da práxis. O que é hegemônico em uma sociedade é visto, assim, nos rituais materiais reproduzidos ali, e não no que se pensa. Não importa quantas críticas eu tenha, por exemplo, à instituição casamento: se eu me caso, mesmo sem usar o clássico vestido branco, eu fortaleço a instituição com a minha reprodução do ritual que a sustenta.

Se criticamos uma instituição, como o nosso protagonista faz, mas nos submetemos a ela e a reproduzimos, nossa crítica fica impotente. Isso porque a práxis prevalece. A força prática, material, daquela sociedade de telas e espetáculos, é maior do que a força de qualquer pensamento, crítica ou discurso individual. Aquele sistema se apropriou dessa crítica, a absorveu, transformando-a também em um espetáculo.

A veiculação de um discurso crítico por um meio hegemônico, então, não enfraquece o meio hegemônico, mas a própria crítica. A crítica televisiva veiculada na TV não enfraquece, mas fortalece a TV.

De acordo com Vladmir Safatle, esses paradoxos são parte da nossa racionalidade cínica. Nossa sociedade não busca mais coerência, pois já não acredita que ela seja possível. E o apontamento dessas incongruências, hipocrisias ou aparentes contradições perde sua potência crítica, e funciona apenas como manutenção do sistema. É como se o simples apontamento da contradição fosse suficiente, e não se fala mais nisso.

Diferente da compreensão popular, o cinismo na concepção filosófica não se refere a mentira, dissimulação ou má fé. Se refere a uma estrutura de racionalidade que absorve paradoxos. A sociedade cínica enxerga as contradições, mas deixa de se incomodar com elas. Deixa de transformá-las em força propulsora para a busca por uma sociedade mais adequada. Apenas aceita que os critérios de justificação social já não se adequam à realidade.

É impotente na sociedade cínica, por exemplo, desvelar que a meritocracia não existe, que foi como eu comecei esse texto. Todos nós já sabemos disso. É impotente dizer que as corporações de mídia, como empresas capitalistas, têm como única finalidade o lucro, e não o interesse público, como declaram. Esses apontamentos, porém feitos de dentro do sistema, não enfraquecem o sistema.

Na utopia marxista, o desvelamento das opressões levaria à revolução. Na distopia do espelho negro, o desvelamento das opressões alimenta o sistema opressor.

Para saber mais, leia o artigo publicado na CartaCapital.

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Julia Lery é Mestre em Comunicação Social na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, doutoranda na mesma área pela PUC-Rio e professora do departamento de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Referências

RODRIGUES, Sílvia Viana. Rituais de Sofrimento. São Paulo: USP, 2011. Tese de doutorado, Faculdade de filosofia, letras e ciências humanas, São Paulo, 2011.

SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008.

SILVERSTONE, Roger. Complicity and Collusion in the Mediation of Everyday Life. New Literary History, Fall 2002.

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