A representação do outro em Deus e o Diabo na Terra do Sol

Por Roberto Barcelos. A promessa de o mar virar sertão e o sertão virar mar é um ponto de esperança na narrativa do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964). Dirigido e roteirizado pelo cineasta Glauber Rocha com a colaboração do documentarista Walter Lima Jr., o longa-metragem faz valer ao nome o diretor ao lado de outras obras dele, como “Barravento” (1962) e “Terra em Transe” (1967). No filme, encontramos o posicionamento político do diretor como um autor, dono de sua obra e de um pensamento forte de revolução. Todavia, sua temática socialista e a luta do proletariado contra o sistema que o oprime é compreendido, infelizmente, apenas por aqueles que estudam a obra do Glauber Rocha e a sua importância para o cinema nacional.

O sertão e a pobreza são um dos mecanismos de identificação que o ele manipula para que o espectador se identifique com a história. O sertanejo Manuel (Geraldo Del Rey) e sua esposa Rosa (Yoná Magalhães) enfrentam todas as dificuldades em uma terra que não é de Deus e nem do Diabo, e sim dos homens poderosos e detentores do capital. Enquanto Rosa mói mandioca para fazer farinha, Manuel questiona a falta de leis que assegurem os seus direitos. Após o sertanejo matar um importante coronel, ele entra em um estado de delírio que apenas cresce durante o desenvolvimento da narrativa do filme.

Como forma de receber perdão pelo seu pecado e salvação, Manuel começa a seguir as palavras do santo Sebastião (Lídio Silva) e torna um dos seus discípulos. Rosa é a única que não se rende ao delírio religioso, mas continua ao lado do marido como uma voz da razão. Com a promessa de um paraíso “cheio de fartura”, o santo reúne um número cada vez maior de seguidores e mostra um viés violento para as palavras sacras, principalmente com o desejo de lutar contra os latifundiários e incentivar que os seus discípulos e seguidores ajam com violência.

Para impedir a missão do santo de conquistar o sertão, os latifundiários contrataram o matador de cangaceiros, Antônio das Mortes (Maurício do Valle), para assassiná-lo. Contudo, quem “matou a fé de Manuel”, de acordo com o Cego Júlio, foi Rosa. Nesse momento, a personagem encontra o seu momento de delírio, mas ainda assim é a única capaz de enxergar que a terra santa do sertão é, na verdade, um grande cenário de guerra, injustiça e vingança.

Glauber Rocha procurou artifícios para criar uma nova linguagem cinematográfica que faça parte do cinema de Terceiro Mundo. O neorrealismo e a negação de técnicas sintetizadas pelo grande cinema comercial são elementos que o diretor uniu a sua ânsia revolucionária em uma atmosfera ideológica cercada pela experimentação, cultura e folclore nordestino. Contudo, o que cativava o cineasta também era material de estudo de uma vanguarda cinéfila que surgia na época, composta por membros de uma classe média que pretendia levar cultura para grupos que eles consideravam marginalizados.

Com o desejo paternal de fazer cinema para os mais pobres, a classe média cultural começou a produzir filmes que tentavam comunicar com a vida dos moradores de periferias, áreas rurais e qualquer outro lugar que não seja o centro urbano da burguesia ou a casa grande dos latifundiários. Porém, as realidades apresentadas eram apenas compreendidas por meio de livros, sem a atenção da equipe de produção de enxergar a veracidade brasileira fora dos filtros e do olhar criado pelas universidades.

Por esse motivo, as obras cinematográficas produzidas não aproximavam do público desejado, pois as facetas de personagens que sempre representavam a ideia de alguém oprimido e de uma figura bastante clichê do burguês opressor e detentor dos meios de produção não despertava qualquer interesse político. A narrativa, de acordo com Jean-Claude Bernardet, era asséptica: onde o problema e a solução caminhavam juntos. Essa estrutura dramática superficial apenas colaborava para a passividade de quem assistia os filmes, e não com a politização e provocação da grande audiência que eles tentavam alcançar.

Em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Glauber Rocha também enfrentou um obstáculo ao tentar transmitir sua mensagem. A estética das obras era de difícil compreensão para os brasileiros que estavam acostumado a assistir filmes com características hollywoodianas, como os realizados pela Atlântida Cinematográfica. Havia uma grande preocupação de inovar artisticamente o cinema e enxergá-lo como autocrítico.

Inclusive, a ideologia “câmera na mão e ideia na cabeça” salienta que o cinema da época devia ser feito de acordo com as condições que surgiam. Não havia um grande investimento de capital pelas produtoras para tornar os filmes possíveis, por isso Glauber gravava de acordo com as circunstâncias do momento e do equipamento que ele tinha. Contudo, ainda podemos perceber uma grande habilidade de analisar a imagem como um objeto narrativo, principalmente o sertão seco do filme combinado com a expressão dos seus moradores que apareciam durante o longa como coadjuvantes da obra.

Não é possível desmerecer o trabalho do cineasta por não alcançar a massa com o conteúdo político. A ideologia presente no filme permeia mais a visão própria dele sobre o mundo e sua representação crítica sobre a vida do Nordeste e a pobreza daquela região, ao lado de elementos quase oníricos de uma realidade teatral por conta das personalidades de cada personagem e como elas se comportam na trama e suas adversidades. Glauber não tentava politizar por se preocupar mais em inovar com o cinema do que transformá-lo em uma forma de ativismo.

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Roberto Barcelos é graduando do curso de jornalismo da PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Mídia e Narrativa e monitor do Centro de Crítica da Mídia.

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