A fala simples na reportagem

Por Caíque Pinheiro. No ultimo ano, a Academia Sueca fez juntar-se a nomes como Alice Munro, Doris Lessing, Mário Vargas Llosa e J.M. Coetzee a quase desconhecida Svetlana Aleksiévitch – uma senhora nascida ucraniana e criada na Bielorrúsia. Em comum, esses autores têm o Nobel de Literatura, mas, à diferença de quase todos, Svetlana o recebeu por sua obra não ficcional.

“Escrevi cinco livros, mas tenho a impressão de que todos eles são apenas um. Um livro sobre a história de uma utopia”, disse Svetlana, quando da premiação. São obras que começam a chegar ao Brasil, trazidas pela Companhia das Letras, e que questionam o fim do homem soviético. Tema amplo, marcado por eventos grandiosos como guerras e uma tragédia nuclear, que a autora tem em vista, mas não têm em foco.

À Svetlana interessa o grande acontecimento, mas em pequena escala. “(…) migalha por migalha, a história do socialismo ‘doméstico’, do socialismo ‘interior’. Aquele que vivia na alma das pessoas”, disse a autora, também no discurso para a Academia Sueca.  Assim, ela se filia a uma tradição da reportagem, consolidada no século XX, que busca dar visibilidade às histórias de pessoas comuns e suas múltiplas perspectivas sobre a vida.

Svetlana diz de que escuta as histórias de outros, comuns, muitos. Que lhes deixa falar. Nos livros, ela faz com que relatos de inúmeras pessoas apareçam como se fossem testemunhos – quase integrais, com cacoetes de fala e assinados – e com isso sugere uma mediação sutil, quando não o seu total apagamento: uma ilusão.

Seus livros, entre os quais Vozes de Tchernóbil e A guerra não tem rosto de mulher, já vertidos para o português, são apurados do mesmo modo. Ela, que se considera uma “mulher-ouvido”, diz, neste vídeo, que os escreve ao longo de anos, durante os quais entrevista diversas pessoas (para cada título, pelo menos 700). “Eu uso um gravador. Com a caneta é impossível captar as pessoalidades, as peculiaridades de cada um. Todas essas impressões, barulhos, é preciso gravar tudo isso”, diz Svetlana, nesta matéria.

Em Vozes de Tchernóbil, por exemplo, cada personagem aparece como o enunciador de um monólogo, que é sucedido pelo nome de quem o proferiu, como se fosse uma assinatura. Em cada uma dessas narrativas, uma perspectiva pessoal sobre o acidente nuclear e suas implicações. Assim, sucede-se à fala da viúva de um bombeiro que atuou na contenção da catástrofe, a de um homem que não aceitou ser evacuado da área, considerada inóspita em função de altos índices de radiação presentes no solo, na água, e em plantas, por exemplo. Os primeiros trechos do livro podem ser consultados aqui.

Variados no que diz respeito aos conteúdos e às perspectivas sobre o acidente, chama à atenção a clareza comum aos relatos. A fala dos personagens buscados por Svetlana aparece de modo ordenado e simples (quase não há termos incomuns no texto, exceto aqueles que designam coisas eslavas – mérito, também, da tradução). É muito fácil ouvi-los! Mas isto não se pode atribuir somente à escuta qualificada da autora, a “mulher-ouvido”, pois, certamente, tem muito a ver com sua poderosa habilidade de escrita.

Janet Malcolm, em posfácio para seu O jornalista e o assassino, anota que “a maior parte dos jornalistas que trabalham com um gravador usa as transcrições de uma entrevista longa apenas como uma ajuda para a memória – como uma espécie de segunda oportunidade para tomar notas –, e não como um texto para ser citado. A transcrição não é uma versão terminada, mas uma espécie de rascunho da expressão”.

O gravador registra “a sintaxe bizarra, as hesitações, os circunlóquios, as repetições, as contradições e as lacunas em quase todas as não sentenças que pronunciamos”, diz Malcolm. A fala, então, deve ser traduzida do “gravadorês” para a linguagem comum. “Só um jornalista muito pouco piedoso (ou muito incompetente) mantém as palavras literais do entrevistado e deixa de fazer aquela espécie de edição e reescritura que, na vida real, os nossos próprios ouvidos fazem automática e instantaneamente”[1].

“Por que você não anota isso? São as minhas palavras. Mas você só anota o que quer”. Gosto deste trecho, especialmente, pois sintetiza algo do que tentei esboçar aqui: que as vozes de Tchernóbil são, também, a voz da autora. A experiência do vivido é dos personagens, mas a experiência do narrado é compartilhada.

Em discursos e entrevistas, Svetlana diz que escuta as histórias de outros, comuns, muitos. Que lhes deixa falar. Nos livros, ela faz com que relatos de inúmeras pessoas apareçam como se fossem testemunhos – quase integrais, com cacoetes de fala e assinados – e com isso sugere uma mediação sutil, quando não o seu total apagamento: uma ilusão. A simplicidade e a potência das falas soadas em Vozes de Tchernóbil resultam, justamente, do refinado trabalho da autora para favorecer as expressões de outros.

É sua habilidade narrativa que desobscurece tantos aspectos sobre o acidente nuclear que, acontecido 30 anos atrás, ainda detém o título de “o maior da história”. “É impossível escrever sobre isso”, disse uma das vozes. “Não sou escritor, não saberia como contar… Mas sou testemunha. Aconteceu assim…”, disse outra, como que endossando a necessidade de alguém que soubesse fazê-lo. “Disponho de cifras, vou te dar tudo. Eu posso lutar, organizar demonstrações, piquetes, conseguir medicamentos, visitar crianças enfermas, mas não consigo escrever. Faça isso,” disse mais uma.

Soam também, no livro, as vozes que desconfiam da mediação. “(…) eu não leio o que escrevem. Quem nos entende?”, diz uma.  Outra, irritada com escritores que “confundem”, provoca Svetlana, depois de exprimir suas verdades: “Por que você não anota isso? São as minhas palavras. Mas você só anota o que quer”. Gosto deste trecho, especialmente. E penso que ele sintetiza algo do que tentei esboçar aqui: que as vozes de Tchernóbil são, também, a voz da autora. A experiência do vivido é dos personagens, mas a experiência do narrado é compartilhada.

[1] Malcolm (2011, p. 153), diz, ainda, que “A ideia de um repórter que inventa a fala em vez de relatá-la é repugnante e até mesmo sinistra. (…) A fidelidade ao pensamento do entrevistado e à sua maneira característica de se expressar é uma condição sine qua non da citação jornalística – à qual se subordinam todas as considerações estilísticas”.

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Caíque Pinheiro é Mestre em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e professor assistente substituto na Faculdade de Comunicação e Artes da mesma universidade. Membro do grupo de pesquisa Mídia e Narrativa, investiga temas relacionados a reportagens literárias e histórias em quadrinhos.