Feminino de peitos

“Jessica Rabbit is the perfect woman. So is Betty Boop[1]

Por Juliana Gusman. Lévi-Strauss, citado por Rodrigues (1979), propõe abordar a sociedade a partir da perspectiva de que o comportamento humano e as relações sociais constituem uma linguagem. Para o autor, o espírito humano opera em uma estruturação inconsciente que ordena relações entre sujeitos e o mundo. Organizar, para Lévi-Strauss, significa atribuir e reconhecer sentidos disponíveis no cotidiano. Tratam-se de normas que estipulam, instituem e convencionam valores e significações que possibilitam a comunicação entre sujeitos e grupos. A sociedade é encarada como uma construção de pensamentos individuais, coletivos e compartilhados. A cultura seria, portanto, uma espécie de mapa que orienta comportamentos na vida social.

Meema Spadola propõe abordar peitos a partir da perspectiva de mulheres. O documentário Seios (1996) seria, portanto, uma espécie de obstáculo que desorienta caminhos do mapa cultural que aponta apenas para estradas inteligíveis. É um rasgo em atalhos de compreensão. É uma rota alternativa:

O que os peitos significam na sociedade que os cerca?

Rodrigues afirma que conceitos como “masculinidade” e “feminilidade” são crenças fundamentais na inteligibilidade da cultura. No contexto de uma sociedade masculinista regida por um modelo de heterossexualidade compulsória, a mulher é percebida em relações de oposição binária ao homem. A dicotomia configura gêneros compreensíveis, que instituem e mantém relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática e desejo sexual. Nesse cenário socialmente naturalizado, as relações entre homem e mulher são permeadas por disputas de poder marcadamente desiguais. Segundo Saffioti, citada por Santos e Izumino (2005), a dominação masculina está vinculada ao sistema capitalista patriarcal, configurando um cenário de exploração e dominação econômica, política e ideológica. O sistema, de acordo com a autora, socializa o homem para dominar a mulher, que é impelida a se submeter. Para Boaventura de Sousa Santos (2016) as relações econômicas e sociais capitalistas não se/ abstém de agir sobre todas as relações existentes da sociedade que condena. O patriarcado faz parte da mesma lógica de exploração que subjuga as classes populares: as mulheres são o ponto baixo da verticalidade social que configura relações binárias, e fixas, de gênero.

O corpo da mulher faz parte dessa disputa e as estratégias de dominação são múltiplas e transitam espacialmente, entre o público e o privado, perpetuando-se e reconfigurando-se em diferentes contextos sociais.  A violência é simbólica, física, econômica, política. E é cultural. Os peitos tornam-se, nesse contexto, objetos e símbolos de dominação e embate entre gêneros.

 Ao longo da história, o corpo permaneceu na esfera negativa da dicotomia definidora do homem. Era antagonista do pensamento, da razão, do espírito. O empenho do pensamento filosófico Ocidental, fortalecido principalmente no contexto do Iluminismo, era de descrever os homens como criaturas unicamente racionais. O corpo da mulher era colocado como representação da materialidade que miravam condenar. O feminino, em oposição a racionalidade masculina, representava o sentimentalismo, o impuro, o pecaminoso. Talvez o símbolo corporal mais forte da feminilidade, os seios tornaram-se tabu, a obscenidade impura desejada e condenada dentro da lógica binária de gêneros e sexualidades.

 E o tamanho importa. Se muito pequenos, não são vistos como femininos, embora garantam a suposta liberdade masculina para se usar o que quiser, ou não. Abolição do sutiã: a roupa não revela volumes. Se grandes, são motivos de constrangimento na puberdade ou de orgulho pelo corpo precocemente maduro. Provocam os homens. E eles os usam. De fato, nas relações binárias e heterossexuais o tamanho pouco importa. Mas em todas elas, os peitos femininos se colocam à disposição da sexualidade e do desejo masculino. E são apenas nelas que os seios deixam de ser obscenos para se tornar desejo.

As próprias mulheres estão confinadas nessa lógica. Conforme Wolf (1992), a partir dos anos 1980, as mulheres conseguiram abrir brechas na rígida estrutura do poder. Números cada vez mais expressivos de mulheres têm acesso a capital econômico e político, embora a desigualdade de gênero endêmica nessas esferas de mantenha expressiva. Porém, cresceram aceleradamente distúrbios relacionados à alimentação e os índices de procedimentos estéticos, como a cirurgia plástica. Nos consultórios, multiplicam-se as demandas por seios maiores. Inclusive, a pedido dos maridos das próprias pacientes[2]. O seio, por vezes, é propriedade conjugal.

As despesas com o consumo se multiplicam. A pornografia se tornou o gênero de grande expressão. As narrativas midiáticas, certamente, contribuem para perpetuação desse cenário de dominação estética. Os tratamentos de imagem, através de programas como o photoshop, colaboram para a construção de um corpo feminino irreal, porém almejado. O belo tem se reconfigurado midiaticamente em terrenos de impossibilidade.

Visando a liberação feminina, é certa a necessidade de reinventar o próprio corpo, e os próprios seios, simbolicamente. Isso não significa privá-los de sexualidade. Significa expandi-los e ressignifica-los à sexualidade das mulheres, e não apenas restringi-los aos objetivos sexuais masculinos. O documentário Seios se coloca como um esforço contra-hegemônico de dominação corporal. Confere o poder de significação do corpo feminino às mulheres. E a palavra lhes confere existência legitimada. Mesmo se caracterizando como um produto midiático que usa de ferramentas hegemônicas para construção de sentidos, e que reproduz certas falas hegemônicas, o documentário age na mediação.

Ele revela que nós, mulheres, não falamos sobre nosso corpo. Não exploramos nosso próprio corpo. Não o vemos midiaticamente representado, a não ser em narrativas eróticas ou pornográficas. Não conhecemos a diversidade de corpos femininos existentes porque eles são escondidos, silenciados e revelados apenas se objetificados. Não sabemos que a cultura age sobre eles de forma interseccional: os corpos pobres, os corpos negros, os corpos indígenas, os corpos trabalhadores e os corpos que não se encaixam em categorias binárias de gênero e sexualidade não são talhados da mesma forma. Com alguns corpos, a cultura é mais bruta. Alguns corpos inexistem no mapa cultural.

 O corpo pode ser sexualizado. Os seios podem ser sexualizados. Mas são devem ser apenas sexualizados. Não devem ser sexualizados apenas por homens. É sobre o material bruto do corpo que a cultura exerce sua força na constituição de subjetividades. Mesmo em tentativas dicotômicas e essencialistas de se compreender o sujeito, os esforços que visam à subversão de identidades redutoras são possíveis.  E as forças femininas sempre estiveram na vanguarda dessas tentativas utópicas. Seios avança na luta pela pluralidade de sentidos que nossos corpos e nossas subjetividades podem, e devem, ter.

Ano: 1996
Direção: Meema Spadola
Duração: 50 min
Gênero: Documentário
País: Estados Unidos

Para saber mais, leia o texto publicado no blogue AzMina.

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Juliana Gusman é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC Minas (Bolsista Capes) e graduada em Jornalismo pela mesma instituição. É membro do grupo de pesquisa Mídia e Narrativa.

Referências

IZUMINO, Wânia. SANTOS, Cecília. Violência contra as Mulheres e Violência de Gênero: Notas sobre Estudos Feministas no Brasil. Estudios Interdisciplinarios de América Latina y El Caribe. Tel Aviv, v.16, n.1 ,1996. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/revista/16169/V/16&gt;

RODRIGUES, José Carlos. O tabu do corpo. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979.

SANTOS, Boaventura Sousa. A difícil democracia: reinventar as esquerdas. São Paulo: Boitempo, 2016.

WOLF, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

[1] Bella, em “Seios”, de Meema Spadola.

[2] Informação obtida através de conversas com cirurgião plástico.